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Quinta, 10 Janeiro 2019 14:55

Adaptações na agropecuária podem ajudar a reduzir gases de efeito estufa

Escrito por Correio Braziliense
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Embora considerado o principal vilão do aquecimento global, o dióxido de carbono não é o único responsável por absorver parte da radiação solar e redistribuí-la na atmosfera. De fato, o CO2 representa 55% das emissões, mas há outras substâncias que têm o mesmo impacto no aumento de calor no planeta. A agropecuária é a maior fonte mundial de lançamentos dos demais gases de efeito estufa e, agora, uma pesquisa do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) mostrou que mudanças nas práticas agropecuárias e alimentares poderiam reduzi-las em até 38% até 2050. Esse é o prazo para o mundo atingir a meta do Acordo de Paris: limitar o aumento da temperatura média a 2ºC e, preferencialmente, 1,5ºC.

O pesquisador Stefan Frank, do IIASA, liderou a equipe que realizou a primeira análise detalhada de mitigação do setor agropecuário, usando uma combinação de quatro diferentes modelos econômicos globais e avaliando o potencial de redução de lançamento de gases de efeito estufa. De acordo com Frank, sozinha, a agricultura poderia diminuir em até 15% as emissões de metano e óxido nitroso até 2050, um total estimado de 0,8-1,4 gigatonelada de dióxido de carbono equivalente por ano (GtCO2e/a), a um custo de US$ 20/t CO2e. Mudanças na dieta em países com consumo excessivo de carne e laticínios têm potencial de contribuir com diminuições adicionais de 0,6 GtCO2e/ano, uma redução total de 23%.

As emissões de metano e óxido nitroso vindas do setor agrícola representam atualmente de 10% a 12% dos lançamentos antropogênicos de gases de efeito estufa, e a porcentagem está crescendo, em grande parte, graças ao aumento do uso de fertilizantes sintéticos e do crescimento de rebanhos de ruminantes. Desde 1990, as emissões aumentaram em um terço, mas os dados mostram que a produção cresceu 70%, de modo que a agricultura está se tornando mais eficiente ao longo do tempo. Se o mundo quiser atingir a meta de estabilização climática do Acordo de Paris, no entanto, essas emissões terão de diminuir, segundo argumenta o artigo, publicado no Jornal do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados.

As indústrias de carne bovina e laticínios são altamente produtoras de gases de efeito estufa, e quatro modelos aplicados no estudo contribuiriam com mais de 2/3 do potencial total de mitigação na agricultura. Frank identificou como o setor poderá reduzir as emissões: opções técnicas, como suplementos para alimentação animal que melhoram a digestibilidade dos alimentos; opções estruturais, que são mudanças mais fundamentais na agricultura, como alterações nos níveis de produção, e opções da demanda, ou seja, migração dos consumidores para dietas com menos produtos de origem animal. “Direcionar ações de mitigação para um número limitado de regiões, como África, China, Índia e América Latina, que são áreas em desenvolvimento, e de commodities, como carne e leite, que são caracterizadas por intensidades de emissão relativamente altas, permitiria uma redução substancial das emissões”, afirma.

Demanda

Os modelos também mostram que, à medida que os preços do carbono sobem, apenas a diminuição da produção e do consumo dos produtos associados aos gases de efeito estufa tem potencial de frear as emissões. “As mudanças na dieta teriam um benefício adicional: à medida que cai a demanda em países com consumo excessivo, menos óxidos nitrosos e metano são gerados, ao mesmo tempo em que isso também proporcionaria uma distribuição mais equilibrada da ingestão calórica de carnes e laticínios em mais regiões do mundo, com benefícios para a segurança alimentar”, argumenta o pesquisador.

Coautor do trabalho, o pesquisador do IIASA Petr Havlík lembra, contudo, que reduzir o consumo não é suficiente para cumprir o Acordo de Paris, e que os governos têm de se esforçar para implementar ações de mitigação. “Todos os modelos demonstraram que a mudança na dieta pode contribuir apenas com parte dos esforços necessários para atingir a meta de estabilização climática de 1,5 °C, e os formuladores de políticas não devem esquecer as ações voltadas à produção, que são as mais promissoras para mitigação”, alerta.

Como os países signatários do tratado terão de monitorar periodicamente o progresso e fazer um balanço da implementação das ações, ele acredita que os resultados do estudo poderão ajudá-los a identificar prioridades regionais na agropecuária e ter uma compreensão melhor dos potenciais de contribuição do setor.


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