Quinta, 02 Abril 2020 15:08

Na intensa busca por soluções, junção da Engenharia com a Medicina é forte aliada

Escrito por Diário do Comércio
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Isolamento. Esta é a palavra de ordem no mundo paralisado pelo Covid-19. Porém, no território da ciência, a recomendação é exatamente no sentido contrário – o da colaboração, da troca de experiências entre as diversas áreas do conhecimento.

Um exemplo é a interação entre a engenharia e as áreas ligadas às ciências que estudam o corpo humano, como a biologia e a medicina. Sem essa troca de experiências, não existiriam os equipamentos que salvam vidas, como os respiradores, um dos mais importantes no atendimento dos pacientes atingidos pelo Covid-19.

Para projetar os respiradores, engenheiros e médicos trocaram seus conhecimentos. Os engenheiros entraram com o desenvolvimento das engrenagens, dos motores, enfim, das peças que mantêm o equipamento em funcionamento. Os médicos, com as informações sobre o funcionamento dos pulmões e a calibragem necessária para que o equipamento opere segundo os mesmos parâmetros de funcionamento do sistema respiratório humano.

Sem a engenharia, também não seria possível o sequenciamento do genoma do coronavírus em prazo tão curto, como ocorre hoje. Para isso, foi fundamental, além do conhecimento em biologia, um equipamento do tamanho de um grampeador, cujo desenvolvimento, tal como os respiradores, não teria sido possível sem a engenharia. Da mesma forma que não existiriam os aparelhos que fazem o teste rápido de doenças como o coronavírus.

Essa interação entre a engenharia e a medicina forma uma área do conhecimento de pouca visibilidade e que atende por vários nomes. Um deles é a engenharia biomédica; outro, a bioengenharia. Ambos representam o mesmo conceito. “Esse enlace é inevitável”, afirma o engenheiro eletricista Hércules Pereira Neves, pesquisador da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do Instituto de Inovação e Incorporação Tecnológica da Faculdade de Ciências Médicas.

Para ele, mais importante do que o País ter mais cursos de engenharia biomédica ou bioengenharia, é ter mais engenheiros das áreas convencionais tendo interesse e maleabilidade para conversar com médicos, biólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, entre outras especialidades, para o desenvolvimento de novas tecnologias que auxiliem no tratamento de doenças ou no melhoramento da qualidade de vida das pessoas. Para ele, todas as áreas das ciências biológicas devem conversar com todas as de exatas, e vice-versa.

Trajetória – A trajetória profissional do próprio Hércules Neves ilustra isso muito bem. Ele formou-se em 1984, em engenharia elétrica, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seu primeiro emprego foi na SID Microeletrônica, empresa mineira produtora de semicondutores que acabou encerrando suas atividades com o fim da reserva de mercado para a indústria nacional de computadores. Na SID, ele ficou até 1987, quando mudou-se para a Escócia, onde fez o doutorado em uma área mais voltada para a física.

Seu primeiro contato com a área biológica deu-se em 1997, quando tornou-se pesquisador do Departamento de Engenharia Biológica da Universidade de Cornell e da Universidade da Califórnia, onde foi professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Biomédica. Lá conheceu o engenheiro e o médico que, juntos, desenvolveram os equipamentos de ultrassonografia que realizam o ecodoppler, exame que revolucionou a cardiologia, a ginecologia e a angiologia. De lá para a Bélgica, na Europa, foi outro pulo.

No Interuniversity Micro Eletronics Center (Imec) – maior centro de pesquisas independentes em nanotecnologia da Europa – Hércules Neves atuou como pesquisador no desenvolvimento de microssistemas biomédicos.

Na Bélgica, sua atividade principal estava ligada à neurociência. Porém, como pesquisador, também trabalhou no desenvolvimento de equipamentos cardiovasculares e de cirurgia robótica. Ele afirma que, de sua formação original, o que menos coloca em prática hoje, em seu estado puro, são os ensinamentos da engenharia elétrica. Sem nenhuma nostalgia em relação à sua formação original, ele diz que sente-se orgulhoso por ter conseguido, em sua trajetória profissional, fazer a junção entre a engenharia e as ciências ligadas ao corpo humano. “Hoje, o que eu menos faço é engenharia elétrica”, afirma Hércules Neves.

Aperfeiçoamento – Para ele, a contribuição que a engenharia biomédica pode dar hoje está muito mais no aperfeiçoamento de equipamentos e tecnologias já existentes do que no desenvolvimento de novas soluções a partir do zero. “Tudo o que estamos fazendo é em cima de coisas que já existem’. Isso decorre, segundo ele, de uma razão prática: qualquer desenvolvimento a partir do zero demora muito tempo para que possa se chegar a algo capaz de ser utilizado no combate ao coronavírus.

“Ninguém está em condições de ver a técnica chegar a ser um produto”. Com o coronavírus, este tempo, ressalta Hércules Neves, não existe. “Todas as soluções têm que chegar dentro de uma janela de 30 a 60 dias”, afirma.

Para ele, o Covid-19 evidenciou que, apesar de todas as tecnologias disponíveis, há, no mundo, um despreparo para o trato de situações catastróficas, como a atual. Um dos exemplos por ele apontado, além da falta de respiradores, no Brasil, nos Estados Unidos e também na Europa, é a falta de testes rápidos, cujo desenvolvimento deveria, a seu ver, ser incentivado de forma mais incisiva, especialmente porque um mesmo teste poderia, como ressalta, servir ao diagnóstico de mais de uma doença.

“O mesmo teste que atende ao coronavírus poderia atender, também, à dengue e à zica’, pontua.

No entanto, mais importante que tudo isso, e como algo que poderia acelerar todos os processos, é, no seu entendimento, a busca por soluções multidisciplinares. Temos é que pensar no que vai acontecer daqui para a frente”.

Para ele, a principal lição que se tira é de que é preciso unificar os esforços entre as diversas áreas do conhecimento. “Precisamos ter consciência de que é muito importante fomentar o encontro de disciplinas”, afirma Hércules Neves. (Material produzido pela SME)